SALÃO DOS REVOLUCIONÁRIOS – XXXVIII Exposição Geral de Belas Artes
Em 1840 a Academia Imperial de Belas Artes passou a sediar anualmente a Exposição Geral de Belas Artes. Inicialmente (nos anos de 1829 e 1830) estas exposições – nesses dois anos ainda não oficializadas – eram realizadas apenas por alunos da academia para um público seleto das belas artes e líderes do império.
No dia 31 de março de 1840 o pintor francês – também professor de desenho, língua grega e literatura do Imperador brasileiro D. Pedro II – Félix Taunay (1795-1881), instituiu que as Exposições Gerais de Belas Artes seriam públicas, ou seja, elas estariam abertas para todos que tivessem interesse nas artes (tanto artistas participantes como espectadores em geral). No entanto, no caso dos artistas, essa liberdade de expor estava vinculada com uma espécie de pré-avaliação; era necessário ser admitido para participar.
Os temas e as técnicas aceitas para os trabalhos da Exposição Geral eram impreterivelmente acadêmicos, ou seja, obras que seguissem o padrão clássico. Formas, cores, traços, luz e sombra, figuras e quaisquer elementos que compusessem o trabalho deveriam acatar as regras acadêmicas.
Os membros que compunham o júri da Academia eram os que selecionavam os artistas e seus trabalhos. Eram eles também que premiavam as obras com bolsas de estudos e prêmios de viagem pelo país e para o exterior.
Após a proclamação da República no ano de 1889, a Academia Imperial de Belas Artes passou a se chamar Escola Nacional de Belas Artes. Entretanto, a mudança fora apenas no nome, pois as rigorosas regras continuavam a não permitir distorções da realidade. Esse pensamento parnasiano perdurou – praticamente sem abalos – até meados de 1920, mas precisamente até a histórica Exposição de Arte Moderna de 1922 – apelidada de Semana de 22.
A Exposição de Arte Moderna de 1922 – apresentada nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro, é vista como uma revolução cultural envolvendo artistas do campo da pintura, gravura, escultura, literatura, música, teatro, dança e arquitetura.
O evento ocorreu em meio a agitações culturais, políticas, sociais e econômicas do país. A Semana de 22 foi desprezada e ignorada pela sociedade que permanecia com ideais tradicionais. Apesar de não ter sido compreendida em sua época – assim como ocorreu diversas vezes na história da humanidade, principalmente nas áreas de evoluções revolucionárias como as ciências, a tecnologia e desde o início dos tempos: as artes – por cultuar algo à frente de seu tempo (é da natureza humana temer o desconhecido) os ideais modernistas deram início a uma libertação da mente criativa e das emoções instintivas.
O evento em si não foi “O” ato revolucionário, mas o primeiro passo seguido por passos maiores e mais significativos para a liberdade de expressão artística. A formação de inúmeros grupos e movimentos exemplifica esse desenvolvimento cultural. O Movimento Pau-Brasil, o Movimento Verde-Amarelo e Grupo de Anta, o Movimento Antropofágico (todos movimentos literários), entre outros. Além dos movimentos e ideais formados nesse período, a Semana de 22 iniciou uma saga de outros eventos e ideais que fizeram (e ainda fazem) parte do cenário histórico-artístico brasileiro.
Menos de um ano após a Revolução de 30 (movimento armado liderado por três estados – Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul – que resultou no Golpe de 30 e que depôs o presidente atuante Washington Luís impedindo a posse de Júlio Prestes pondo, dessa maneira, um fim à chamada República Velha), o Brasil estava em constante, porém confusa (como até hoje), mudança em diversos setores.
O arquiteto e professor Lúcio Costa (1902-1998) foi nomeado diretor da Escola Nacional de Belas Artes em dezembro de 1930. Decidido a reestruturar o cenário cultural em prol modernista, ele contratou novos e dinâmicos professores, instituiu uma comissão organizadora para as Exposições Gerais de Belas Artes (a partir de 1933 chamada de Salão Nacional) tendo como participantes Anita Malfatti (1889-1964), Cândido Portinari (1903-1962) e Manuel Bandeira (1886-1968) e demitiu os integrantes tradicionalistas do júri de seleção.
Em protesto, muitos artistas acadêmicos não quiseram participar da exposição pois achavam que ela seria exclusivamente modernista (o que na verdade aconteceu de fato, pois as obras acadêmicas acabaram sendo ignoradas em matéria de organização expositiva), mas a maioria aproveitou essa oportunidade libertadora.
Inaugurada em 1º de setembro de 1931, a XXXVIII Exposição Geral de Belas Artes, conhecida como o Salão dos Revolucionários foi um marco na história do modernismo brasileiro.
Os artistas que participaram do Salão dos Revolucionários são: Cândido Portinari, Emiliano Di Cavalcanti (1897-1976), Cícero Dias (1907-2009), Anita Malfatti, Ismael Nery (1900-1934), Antonio Gomide (1895-1967), Aldo Bonadei (1906-1974), Tarsila do Amaral (1886-1973), Waldemar da Costa (1904-1982), Vittorio Gobbis (1894-1968), Alberto da Veiga Guignard (1896-1962), Lasar Segall (1981-1957), Victor Brecheret (1894-1968), Vicente Leite (1900-1941), José Pancetti (1902-1958), Flávio de Carvalho (1899-1973), John Graz (1891-1980), Paulo Rossi Osir (1890-1959), entre outros. Alguns desses artistas tiveram mais de um de seus trabalhos expostos.

Tarsila do Amaral - A Feira - Óleo sobre tela - 1925 - 46×55 cm - Zitta Penteado de Camargo, São Paulo

Tarsila do Amaral - A Caipinha - Óleo sobre tela - 1923 - 60×81 cm - Carolina Penteado da Silva Telles, São Paulo

Lasar Segall - Morro Vermelho - Óleo sobre tela - 1926 - 115×95 cm - Sonia Warchavchik Rotenberg, São Paulo

Vittorio Gobbis - Melancia - Óleo sobre tela - s/d - 58,5×73 cm - Mauris Ilia Warchavchik, São Paulo

Anita Malfatti - A Estudante Russa - Óleo sobre tela - 1915 - 76,5×61,2 cm - Mario de Andrade, IEB-USP, São Paulo

Anita Malfatti - O Homem Amarelo - Óleo sobre tela - 1915/16 - 61×51 cm - Mario de Andrade, IEB-USP, São Paulo

Flávio de Carvalho - Anteprojeto para Miss Brasil - Óleo sobre tela - 1931 - 40×24 cm - Fulvia e Adolpho Leirner

Cândido Portinari - Retrato de Manuel Bandeira - Óleo sobre tela - 1931 - 73×60 cm - Odilon Ribeiro Coutinho, Rio de Janeiro
Rompendo com as barreiras do tradicionalismo acadêmico, o Salão de 1931 possuía obras de diversas gerações de artistas seduzidos pelo modernismo. Essa diversificação de estilos com ideais modernos resultou em uma rica produção artística.
Essa exposição acolheu artistas já atuantes no cenário das artes plásticas (como os que participaram da Semana de 22), assim como novos artistas que floresceram na época.
Foram os mesmos ideais revolucionários de 1922 que inspiraram os acontecimentos de 1931, no entanto, a reforma cultural incitada pela arte moderna dessa vez estava focada dentro de uma instituição conservadora como era a Escola de Belas Artes.
Ao contrário dos eventos anteriores, o Salão de 31 teve o apoio da imprensa – fator que demonstra a necessidade de um crescimento cultural da sociedade. Essa aceitação ressaltou na necessidade de transformação e consolidação da arte moderna no cenário cultural do Brasil.
Um dos motivos propostos, para a 38ª Exposição Geral de Belas Artes ser apelidada de Salão dos Revolucionário, foi o de atrair mais artistas com o perfil modernistas para o evento.
O resultado dessa quebra de paradigmas culturais foi além de uma riquíssima exposição moderna. Para dar continuidade ao ideal revolucionário artístico, os intelectuais dessa área criaram grupos de pensadores ativistas como o Núcleo Bernardelli – formado por Milton Dacosta (1915-1988), José Pancetti, Eugênio de Proença Sigaud (1899-1979), Joaquim Tenreiro (1906-1992) – , a Sociedade Pró-Arte Moderna (SPAM) – formada por Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Antonio Gomide, Lasar Segall, Paulo Rossi Osir, Vittorio Gobbis, John Graz – , o Clube dos Artistas Modernos (CAM) – formado por Flávio de Carvalho, Di Cavalcanti, Antonio Gomide, Vittorio Gobis – , o Grupo Santa Helena – formado por Alfredo Volpi (1896-1988), Fúlvio Pennacchi (1905-1992), Aldo Bonadei, Mario Zanini (1907-1971), Francisco Rebolo (1902-1980) – , o Grupo Seibi – integrado por artistas japoneses e nipo-brasileiros como Flávio Shiró 1928), Tadashi Kaminagai (1899-1982), Tomie Ohtake (1913), Manabu Mabe (1924-1997) e Tikashi Fukushima (1920-2001) – , entre outros.
Relacionados a este período foram criados também museus, espaços culturais, eventos culturais (como os Salões de Maio e a Família Artística Paulista), leis culturais (como a que instituiu o Salão de Arte Moderna) e projetos (como o plano piloto de Brasília, o projeto arquitetônico do antigo Ministério da Educação e Saúde – atual palácio Gustavo Capanema – e o projeto de criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – o SPHAN ou IPHAN).
Para que toda essa revolução cultural/intelectual brasileira acontecesse, diversos nomes importantes (tanto dos setores públicos como dos setores privados) tiveram participações efetivas: o ministro Gustavo Capanema e o arquiteto e diretor da Escola Nacional de Belas Artes Lúcio Costa, os escritores e críticos Manuel Bandeira, Frederico Barata, Antonio Bento, Mário da Silva Brito, Mário Pedrosa, Mário Schenberg, Luis da Câmara Cascudo, Carlos Cavalcanti (todos esses escritores são os responsáveis pelos registros detalhados dessa época), os mecenas Ciccilo Matarazzo, Francisco de Assis Chateaubriand, Niomar Sodré Bittencourt, Raymundo Castro Maya e Pietro Maria Bardi.
Representados nas obras estão o expressionismo com temas brasileiros e cores tropicais. Os artistas revigorados pelo patriotismo passaram a focar motivos nacionais próprios do país em seus suportes.
Ao mesmo tempo que o modernismo seduziu novos admiradores ele também cultivou novos inimigos. Os resistentes conservadores moveram campanhas para frear o modernismo e seus “agitadores”. Uma dessas atitudes foi a demissão de Lúcio Costa da diretoria da Escola de Belas Artes – dezessete dias após a inauguração do Salão dos Revolucionários. Mesmo com essa demissão os idealistas anti-modernistas não conseguiram impedir as reformas culturais e o crescimento dos ideais de gerações dispostas a mudar o cenário artístico brasileiro.O Salão dos Revolucionários literalmente revolucionou o cenário histórico-artístico brasileiro pois suas atitudes mostraram à gerações posteriores a força que cada um, e todos unidos, possuem para redefinir o que não lhes agradar.